Conceitos:
Dia 11 de setembro mudou definitivamente a globalização |
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O despertar é doloroso. O Afeganistão, uma terra distante, árida e
montanhosa, destroçada pelas lutas tribais da Idade Média, conta para a
economia mundial. De seu destino, das negociações políticas conduzidas
por um nebuloso "pós-Taleban", depende a recuperação ou não
de Wall Street, a "confiança" dos consumidores americanos, as
conseqüência para a Europa, em suma, o crescimento do planeta. Despertar
porque há cerca de dez anos o mundo econômico se fechava cada vez mais
numa bolha aveludada, protegida das guerras e das infelicidades alheias.
Os países da África mergulham no caos? Que importa, dizia Wall Street.
Com fracas perspectivas, esses países não contam mais. Deixemos que
lutem! Até a derrocada da Rússia não causava mais muita comoção, uma
vez garantido que ela não é mais militarmente ameaçadora para o
Ocidente. Seu PIB não ultrapassa o da Holanda, nossas economias tinham se
tornado indiferentes. O início da Intifada não teve qualquer efeito
sobre a expansão ocidental. Primeiro núcleo de tensão mundial, o
Oriente Médio tinha perdido seu poder de perturbar: palestinos e
israelenses estão lutando? E daí? Desde que o conflito fique
circunscrito e não afete a cotação do petróleo...
Na era da economia triunfante, cada país, cada acontecimento tinha apenas
um peso comercial. A política externa americana havia se tornado
mercantilista. O "quantas divisões tem o Vaticano?" se
transformara em "quantos consumidores?". Estados Unidos, Europa,
Japão e seus satélites imediatos estão em paz há 50 anos e representam
90% da economia mundial. O que acontece nos 10% restantes tinha pequena
importância; exceto as fontes de petróleo e de matérias-primas vigiadas
de perto. Sobretudo os países desenvolvidos encontraram na informática
um novo motor de crescimento "interno": os novos mercados
(telefonia, Internet...) e novos modos de produção mais eficazes.
Essa "nova economia" abria para o norte uma nova fase de
prosperidade duradoura e autocentrada. O capitalismo teve suas fases
"extensivas" que baseiam o desenvolvimento na conquista colonial
de mercados. Graças às novas tecnologias, ele parecia entrar novamente
em um período de expansão "intensiva" durante o qual não há
mais necessidade de ser conquistador, porque encontra em si mesmo as forças
de seu crescimento. Sinal dessa ruptura: pela primeira vez, em 1999, e
ainda mais em 2000 e 2001, os fluxos financeiros do norte para o sul foram
mais fracos que no sentido inverso.
O mundo desenvolvido voltava-se para si mesmo. O 11 de setembro mudou
tudo. A economia cai das alturas: afinal, a religião conta. E a
geografia. E a história. Afinal o mundo não pode ser cortado em duas
partes estanques, uma rica e segura por trás de um moderno sistema antimísseis,
a outra deixada, pior para ela, a suas guerras e seu "arcaísmo".
A ameaça, até então num estado de vaga hipótese, tornou-se realidade:
o terrorismo atacou nos Estados Unidos, em Nova York, em Wall Street, o
World Trade Center.
Eis a novidade: os países longínquos não podem mais ser deixados à sua
anarquia. Eles se tornaram abrigos de terroristas e enviam ao Norte, além
das fronteiras, refugiados, droga e agora aviões camicase. A guerra de
Kosovo talvez tenha sido uma advertência. Mas ela se classifica na época
anterior: se o mundo rico se preocupou foi porque ela aconteceu na Europa
e ameaçava estender-se. Bastou contê-la com o envio de forças e de
dinheiro.
Desta vez trata-se de uma coisa muito diferente, porque os terroristas
atacaram diretamente o coração da economia do norte. Combatê-los exige
preocupar-se com esses países que lhes servem de porto. E mais. O
desmoronamento do World Trade Center teve eco no conjunto do mundo árabe-muçulmano
(1 bilhão de consumidores) e, além dele, nos países subdesenvolvidos.
Economia híbrida
A jihad de Bin Laden encontrou os ressentimentos mais diversos, nascidos
dos distúrbios que a globalização provoca. O antiamericanismo se uniu
ao antiliberalismo, a "humilhação árabe" ao mau
desenvolvimento. Os militantes antiglobalização haviam denunciado nos últimos
anos o aumento dos distúrbios e das desigualdades de uma economia que,
segundo eles, gira em benefício único do Ocidente. O terrorismo assume
essa mensagem e a torna dramática. Mesmo que o terrorismo não tenha
nascido da pobreza, vencê-lo passa pelo combate à pobreza.
Há dois cenários possíveis. O primeiro é o da melhor "governança"
mundial. O Ocidente, como disse Jacques Chirac diante da Unesco na última
segunda-feira, deve deixar de impor sua cultura "essencialmente
materialista" e "vista como agressiva". A globalização
deve "fazer prevalecer o interesse dos homens" e se
"civilizar", fórmula que remete à "globalização
controlada" de Lionel Jospin. Os últimos anos viram nascer uma forma
de política mundial (reforço da ONU e do G-8, a criação da Organização
Mundial do Comércio, do Tribunal Penal Internacional...) ainda muito
embrionária e já contestada.
Assistimos a um início de regulamentação dos mercados (pelo FMI, o
G-7-finanças, os grandes bancos centrais...) e ao surgimento de uma
sociedade civil mais ou menos bem representada pelas ONGs (organizações
não-governamentais). Hibridação econômica e social, miscigenação
cultural, cooperação mundial, intervencionismo internacional mais
acentuado em todos os campos: esse novo mundo tem uma postura idealista,
mesmo que corresponda a certas evoluções constatadas.
Ir adiante não será fácil nem rápido. Será preciso que os países árabes
admitam seu fracasso econômico e iniciem uma revolução democrática e
sem dúvida religiosa. Será preciso, de outro lado, que os americanos
rompam o unilateralismo e deixem de se considerar o único modelo
capitalista. A luta antiterrorista levará uns e outros nessa direção? Não
obrigatoriamente.
O segundo cenário é o de uma concentração maior do norte sobre si
mesmo. O intervencionismo internacional poderia se limitar a seu aspecto
policial: garantir que os países anárquicos não abriguem mais
terroristas. Só isso. O 11 de setembro poderá se traduzir não num
"controle" da globalização, mas em sua desaceleração pura e
simples. Nos países desenvolvidos a vigilância dos fluxos financeiros
encarece os custos de transações, e um neoprotecionismo securitário
poderia restringir a entrada de pessoas e de bens. Nos países em
desenvolvimento, os fluxos de investimento vão se restringir ainda mais,
as empresas multinacionais serão tentadas a repatriar suas fábricas mais
delicadas e fugir dos países considerados perigosos.
Os primeiros visados serão os do mundo árabe, pois será preciso
justamente fazê-los embarcar no trem da modernização. Se a busca da
segurança passa à frente da busca do lucro, o comércio mundial se
polarizará no eixo Norte-Norte e sobre a miséria de um Sul abandonado o
terrorismo continuará germinando. Quando examinamos os dois cenários, as
evidentes dificuldades do primeiro infelizmente tornam o segundo mais provável.
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Artigo de
Eric Le Boucher, tradução de Luiz Roberto Mendes
Gonçalves
Contatos: Diniz Neto –
dinizneto@rbsul.net
– (44) 9916-9496 |
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"Há cerca de dez anos o
mundo econômico se fechava cada vez mais numa bolha aveludada,
protegida das guerras e das infelicidades alheias".
11 de setembro de 2001
o WTC foi centro do maior
atentado terrorista nos EUA.
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